Efêmero


O tempo revela o quanto
A paixão é fugidia
Só ele cala esse pranto
E a dor do amor remedia.
Edmar Claudio
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Você tem o direito!

Você tem o direito de nascer pobre e morrer irremediado.
Você tem o direito de ficar nanico, subnutrido, queimando os seus chips cerebrais antes dos dois anos de idade.
Você tem o direito de estudar em escolas públicas… se tiver vagas e professores!
Você tem o direito de arranjar um subemprego para ajudar nos gastos da subsistência familiar.
Você tem o direito de morrer atropelado em qualquer dia da semana.
Opcionalmente, ainda dentro do seu direito, pode ser escolhida outras formas de falecimentos, tais como: vítimade assalto à mão armada, bala perdida ou faca perdida
Você tem o direito de reclamar baixinho que é pra ninguém se incomodar.
Você tem o direito de optar entre a fome e a honra, a retidão de caráter e a propina, o não sincero e o sim interesseiro e servil.
Opte entre o orgulho e o amor próprio. A bajulação e o puxa-saquismo não são sinônimos de lealdade. Escolha entre ser alguém ou ser o capacho alheio. Não fique à sombra, mas não faça sombra à ninguém.

Edmar Claudio

Eu, criança!

Bebo a vida! Bebo à vida!
Vou celebrar a criança
Que vive em mim protegida
Bailando passos de dança.

É ela quem me amansa
Quando a dor me apoquenta
É ela quem me alcança
No turbilhão da tormenta.

Nesse cálice, com a alegria
Que em minha fé descansa,
Me embriago todo dia
No meu sonho, na lembrança…
E em suave letargia
Dormirei com a esperança!

Edmar Claudio

Ilustração de Norman Rokwell para o The Saturday Evening Post

Viver

A dor é a eterna companheira dos viventes…

Viver é sentir a dor dos anos que passam…

Dos amores que se vão
Dos desejos que se foram
Viver é ver como é dorida
A partida
A perda
A derrota
A ausência.
O destino nos guia em suas frias mãos
E a vida é a única experiência das experiências únicas.
Mas, mesmo sabendo que vive-se morrendo,
A vida nos dá infinitos prazeres
Viver é perceber que tudo é findo
Mas em sua frágil textura
A vida nos satura e esgota completamente.
Nossa vidas são como brihos de estrelas
Fulgurando em cadentes trajetórias.

Edmar Claudio

Cantiga da amizade

Dá-me tua mão, minha criança
E vamos percorrer os campos
Molhados do orvalho desta manhã.
Sairemos à esmo, a rolar pelas encostas
E riremos da vida
Por simplesmente vivermos.
Nada mais importa…
Nada mais interessa…
Te mostrarei a lealdade sincera das flores
Em seus ternos amores com os colibris.
Tomaremos um banho de brilhantes cores
Na cascata de luz de um belo arco-íris.
Deixaremos o vento nos açoitar os cabelos
E, quando cair a chuva,
Dançaremos agradecendo a graça que vem dos céus.
Ficaremos por horas-a-fio
Observando a eterna faina das formigas
E nos esqueceremos para sempre do egoísmo vil.
E, à tardinha, quando nos sentirmos cansados
Descansarás tua cabeça em meu colo
E dormirás embalada
Por uma poesia encantada
Que cantarei para ti.

Edmar Claudio

Tatoo

A tua tatuagem
Ondula sobre o ventre
E dança languidamente
Na retina, sua imagem.

Rútilo réptil atraente
Guarda para as suas garras
Um tesouro reluzente
Entre correntes e amarras.

No bronzeado colo que atiça
E eriça a volúpia do desejo
Louríssimos pelos se agitam
Qual dragão em plena liça
Implorando o gozo de um beijo
Meus sôfregos lábios excitam.

Edmar Claudio

A reunião dos corruptos

A Vergonha envergonhou-se e, corada, retirou-se.
A Honra, desonrada, procurou água ou sangue
Para prontamente lavar-se.
A Coragem tremeu de medo
E o Medo congelou-se em arrepios.
-Onde esconderam-se os Brios?
A Honestidade soluçava
Em um escuro canto da sala
Incrédula em suas convicções.
O Caráter fez-se torto
E em espasmos convulsivos
Desfaleceu.
A Ética já idosa, amparada pela Moral,
Abandonou o recinto num pranto irremediável.
O Civismo a tudo e a todos observava incrédulo.
A Probidade, lívida, engulhava em ânsias de vômito.
A Justiça deixou cair a balança ao chão
E quedou-se boquiaberta frente àquela obscenidade.
E a turba de corruptos
No centro daquela casa
Em pleno gozo impune
Gargalhava de prazer imune
Para a Pátria estupefata
Que da platéia assistia
Aquele asqueroso conclave.

*César e Catilina. Mural de Cesare Maccari.(1882-1888)

Edmar Claudio