Calmaria

A natureza não está nem está aí para as tuas atribulações

As ondas nem sabem que tu existes

O céu azul está preocupadíssimo com o teu estado de saúde

Acredito mesmo que dos altos coqueiros da praia o máximo que conseguirás será um pouco de sombra e talvez uma fratura com afundamento craniano se algum dos cocos tua cabeça atingir.

As nuvens distantes estão se lixando para ti.

Portanto, renuncia por hoje aos teus anseios poéticos, toma um chá gelado e vai dormir .

Baiacu

Ressecado olhar a olhar o escaldante céu

O corpo cru do baiacu inexiste limitado por partes de sua casca-pele

O olho fixo é a unica significação da sua inexistência

A areia rodeia o chocante signo

Do peixe que não mais é peixe

Do peixe que só restou no olhar o nome

Na mente do homem que o não vê.

Shopping

Deixar-se guiar a esmo

Como um ramo de algas

A boiar nas calmas marolas

De um tranquilo e morno mar

Caminhar sem rumo

Pelas alamedas indigestas

Do enfastioso shoping

E tentar dar um momentâneo

Sentido à uma vida

Que não vê mais sentido

Em sentir prazer no que oferece

Esse faustoso e inútil

Templo pagão do desenfreado

E viciante consumo

Da ilusão do bem estar

Catedral alienante

Indutora e mantenedora

Da insaciável e alucinante

Busca pela inalcançável felicidade.

A chuva

Cai a chuva
Incessante
Nas biqueiras do quintal
Cai a chuva
Irritante
Pelas ruas de Natal.
Cai a chuva
Inclemente
Soterrando os barracos
Cai a chuva
Persistente
Transformando tudo em cacos.
Cai a chuva
Destruindo
A paz de quem está dormindo
Cai a chuva
Esmagando
O velhinho que vai passando.
Cai a chuva
Assistindo
A criança se afogando
Cai a chuva
Insistindo
Cai a chuva
E vai caindo.

Edmar Claudio

A mosca azul

Eu nunca amei Anouk Aymé!
Mas amava a nouvelle vague
Nos cahiers du cinéma.
A liberdade estava na França!
Aqui prendiam a esperança
E o povo só podia falar
De carnaval e futebol.
Neo-modernismo
Antonioni, De Sicca, Fellini…
Mastroianni e Sofia…
Ciúmes de Monica Vitti.
Pedaços de celulóides
Na cesta de lixo do Cine Santo Antônio.
Canal 100:
Pam-panran-paran-pan-pannnnnnnnn-pam!
Banho tomado, roupinha limpa
Chicletes e pipocas.
A realidade era o filme
Da sessão vespertina dos sábados!

Edmar Claudio

Fanatismo

Triste de um país cujo destino e rumo
Depende só do aprumo dos pés de uns poucos
Triste da nação que enlutada em fumo
Deixa-se levar nas idéias de loucos

Os deuses castigarão a frenética massa
Que transformou em mágico reles tapado
Desmascarando a farsa e a trapaça
De quem manipulou o que estava errado.

Pobres homens de vidas abjetas
Pelo poder usados quais bezerros
Em ruínas para sempre o destino afetas
De quem se deixou levar pelos teus erros
E por teu pretenso êxito traçou metas
Se condenando ao fracasso e aos desterros.

Edmar Claudio

Você tem o direito!

Você tem o direito de nascer pobre e morrer irremediado.
Você tem o direito de ficar nanico, subnutrido, queimando os seus chips cerebrais antes dos dois anos de idade.
Você tem o direito de estudar em escolas públicas… se tiver vagas e professores!
Você tem o direito de arranjar um subemprego para ajudar nos gastos da subsistência familiar.
Você tem o direito de morrer atropelado em qualquer dia da semana.
Opcionalmente, ainda dentro do seu direito, pode ser escolhida outras formas de falecimentos, tais como: vítimade assalto à mão armada, bala perdida ou faca perdida
Você tem o direito de reclamar baixinho que é pra ninguém se incomodar.
Você tem o direito de optar entre a fome e a honra, a retidão de caráter e a propina, o não sincero e o sim interesseiro e servil.
Opte entre o orgulho e o amor próprio. A bajulação e o puxa-saquismo não são sinônimos de lealdade. Escolha entre ser alguém ou ser o capacho alheio. Não fique à sombra, mas não faça sombra à ninguém.

Edmar Claudio

Eu, criança!

Bebo a vida! Bebo à vida!
Vou celebrar a criança
Que vive em mim protegida
Bailando passos de dança.

É ela quem me amansa
Quando a dor me apoquenta
É ela quem me alcança
No turbilhão da tormenta.

Nesse cálice, com a alegria
Que em minha fé descansa,
Me embriago todo dia
No meu sonho, na lembrança…
E em suave letargia
Dormirei com a esperança!

Edmar Claudio

Ilustração de Norman Rokwell para o The Saturday Evening Post